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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CCB OBRA DE RESPEITO

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

A Congregação é citada no livro de Delcio Monteiro de Lima, “ Os demônios descem do norte”, como obra de respeito.

Este livro foi lançado em 1987 e os dados sobre a CCB são do relatório de 1986. Naquela época o autor estimou em dois milhões o número de membros da Congregação em 7559 casas de oração. Hoje são mais de 17 mil  imóveis próprios e cerca de três milhões de membros.

Passados 23 anos, a CCB continua praticamente a mesma, no aspecto organizacional. Não cobra o dízimo, os ministros não são assalariados e a igreja não embarcou na tendência mercantilista que assola muitas igrejas.

Quando o autor lançou o livro, algumas igrejas evangélicas estavam engatinhando na política, dizendo ele o seguinte: À exceção da Congregação Cristã no Brasil, único grupo que obedece ao princípio de que "quem ocupa cargos no ministério não deve aceitar encargos políticos", todos os ramos da família pentecostal brasileira estão se enredando irreversivelmente na política partidária.

Passados estes anos, muita água já rolou, e muitos líderes evangélicos já entraram e saíram da política, inclusive por corrupção ativa. Enquanto isso, nossa igreja continua sem se envolver, sem apoiar e sem indicar membros ou outras pessoas à política.

Sobre o livro, o autor insiste num pensamento comum nos anos setenta, principalmente entre os católicos, de que as seitas protestantes eram meros movimentos financiados pelo governo americano através da CIA, para facilitar a dominação da América Latina pelos americanos. Esta é a visão que aparece neste livro de Délcio Monteiro, e a razão do título do mesmo.

Quando o autor lançou o livro, ainda não havia caído o muro de Berlim e o comunismo ainda não havia sofrido a grande derrocada, com o fim da União Soviética. O livro aborda muito esta questão de direita, esquerda e o papel das igrejas na América latina e evidentemente estava enganado em muitas das suas idéias.

O livro fala de várias igrejas e movimentos religiosos e a Congregação Cristã é citada como obra de respeito. O autor aponta diversas diferenças entre a CCB e as demais igrejas pentecostais, não achando nenhuma ligação financeira entre a CCB e outras organizações no exterior.  Como muitos outros textos, este é mais um, feito por alguém de fora, que apenas enxerga um aspecto da igreja, de acordo com a proposta de seu trabalho.


OBRA DE RESPEITO

Uma enorme surpresa está reservada, a quem chega à rua Visconde de Parnaíba, na Mooca, em São Paulo. Nada parece com o que foi imaginado. O templo-sede da Congregação Cristã no Brasil é imenso, imponente, mas sua capacidade para acomodar 4 mil pessoas torna-o pequeno nas noites de culto.
Predomina ali gente da classe média, muitos descendentes de italianos, mas a grande maioria é de brasileiros genuínos. Aquela multidão, homens trajados com sobriedade e mulheres de véu, separados geometricamente, ora fervorosamente, só interrompidos pela voz solene do pregador ou pelos cânticos dos fiéis, acompanhados pela banda de dezenas de músicos. O culto nunca termina antes das 11 da noite. Preces, hinos, testemunhos, pregação. Depois, fora da igreja, despedem-se fraternalmente. Os homens beijam os homens e as mulheres o fazem entre si. Homens e mulheres trocam apenas solenes apertos de mãos. Muito respeito. A felicidade, entretanto, está estampada na fisionomia de todos. O pátio de estacionamento defronte vai-se, então, esvaziando aos poucos, com a saída dos carros. Os que foram a pé caminham devagar e enchem a Visconde de Parnaíba e transversais. A saída é ordeira e demorada. Por fim, o silêncio da noite volta àquela parte da Mooca.

A Congregação Cristã no Brasil é a segunda maior igreja pentecostal do País. Vem logo abaixo da Assembléia de Deus em número de crentes, embora seja cerca de um ano mais antiga do que aquela por aqui. É uma experiência religiosa que também veio dos Estados Unidos, trazida por Louis Francescon, um italiano naturalizado americano, nascido a 29 de março de 1866 em Cavasso Nuovo, que morava em Chicago desde 1890. Era um artífice especializado em mosaicos, filiado à Igreja Presbiteriana, na qual chegou a ancião. Casou-se com Rosina Balzano em 1895.

Louis Francescon converteu-se ao pentecostalismo em fins de abril de 1907, passando a freqüentar a missão do reverendo W. H. Durham, na North Avenue, em Chicago, e lá, a 25 de agosto do mesmo ano, recebeu o batismo com o Espírito Santo, expressando-se pela primeira vez em línguas que jamais havia ouvido. A partir de março de 1908, obedecendo ao que chamou determinação divina, abandonou por completo os afazeres habituais para dedicar-se exclusivamente à religião, não obstante fosse pobre e ainda tivesse mulher e seis filhos menores para prover a subsistência. Mesmo assim, seguiu seu destino.

Toda a vida de Francescon voltou-se, então, para o que considerava obra de Jesus Cristo. Dirigiu inúmeras campanhas de evangelização, conseguindo centenas de conversões em Chicago, Saint Louis, Los Angeles e Philadelphia, principalmente. Os americanos de origem italiana tinham por ele especial respeito e consideração. Um homem de comportamento irrepreensível. Por todas as cidades onde pregou, seus seguidores abriram e mantiveram casas de oração.

Guiado pelo que chamou santa revelação, embarcou em Chicago a 4 de setembro de 1909 com destino a Buenos Aires, viajando em companhia de Guglielmo Lombardi e Lucia Menna, dois crentes amigos. Semanas depois, deixaram a Capital Argentina para visitar a família Michelangelo Menna, parente de Lucia, em San Caetano, também Província de Buenos Aires. Lá promoveram vários cultos, atraindo novos simpatizantes para a crença, com o registro de ocorrências sobrenaturais que Francescon considerou maravilhosas. Voltaram a Buenos Aires e abriram uma casa de orações num subúrbio denominado Tigre. Era a semente do pentecostalismo argentino.

A vocação missionária de Francescon levou-o, juntamente com Lombardi, até São Paulo, em março de 1910, onde permaneceram até o mês de abril. Lombardi retornou à Argentina para continuar o trabalho iniciado e Francescon, aceitando o desafio de um ateu italiano de nome Vicente Pievani, seguiu viagem rumo a Santo Antônio da Platina, no Norte do Paraná, para tentar a evangelização naquele lugar. Foi penoso alcançar o destino. Primeiro, a precaríssima estrada de ferro Sorocabana até Salto Grande. A seguir, um trecho de mais de 200 quilômetros por uma região inóspita, dos quais 70 a cavalo, conduzido por um guia índio. Mas valeu a pena. Mesmo implacavelmente perseguido por fanáticos católicos da cidade, lá instalou e deixou funcionando um núcleo da fé pentecostal.

A 20 de junho, Francescon estava novamente em São Paulo, abrindo no Brás, com o apoio de dissidentes presbiterianos e batistas, o que seria a primeira casa de oração pentecostal no País. Voltou aos Estados Unidos em fins de novembro, depois de breve permanência no Canal do Panamá, para continuar sua missão de incansável evangelizador. Esteve no Brasil mais oito vezes para supervisionar o gigantesco crescimento de sua obra, sendo a última em companhia da esposa, em outubro de 1947, quando aqui permaneceram durante um ano. Louis Francescon morreu em Oak Park, Illinois, em 7 de setembro de 1964.

A Congregação Cristã no Brasil está organizada segundo o modelo congregacional americano. Como nos Estados Unidos, é avessa a qualquer tipo de publicidade, não possuindo jornais de propaganda doutrinária, nem literatura religiosa de nenhuma espécie. "Outras luzes não precisamos, nem queremos. O tempo muda sempre, porém, a palavra de Deus é imutável. Mudam os homens, porém, o Senhor é o mesmo, eterno e fiel" - é o ensinamento. A igreja, assim, só tem impresso o estatuto, que resume também sua doutrina, e a tradução de um testemunho de fé de Louis Francescon, editado em Chicago. No mais, tudo se preserva por transmissão oral.

Ao contrário de outras igrejas pentecostais, cuja estrutura e funcionamento muito as tornam parecidas a modernas empresas, a Congregação Cristã no Brasil conta com uma organização singela, sem sofisticação. Tudo é descomplicado. Por exemplo, a ordenação de anciãos. os crentes que presidem os serviços de culto nas casas de oração, desempenhando funções equivalentes às dos pastores, faz-se em escolha colegiada, segundo acreditam, por consenso iluminado pelo Espírito Santo, não mantendo, pois, a igreja, seminários para prepará-Ios. Não dispõe, também, de escolas dominicais para ensinar a Bíblia, nem faz proselitismo em praça pública.

Outra diferença das outras igrejas pentecostais é que a Congregação Cristã no Brasil não adota o sistema de cobrança de dízimo. As ofertas de dinheiro são voluntárias e o crente não tem nenhuma, obrigação de natureza financeira para com a igreja. Em contrapartida, não remunera seus anciãos e colaboradores, norma diversa das demais, onde pastores e assemelhados têm vínculo empregatício, com Carteira de Trabalho assinada, inscrição no lAPAS e todos os direitos sociais inerentes à condição de assalariados.

A Congregação Cristã no Brasil é das igrejas pentecostais a que experimenta a mais dinâmica expansão, com dados de crescimento absolutamente confiáveis. A partir de 1966, com efeito, organiza um relatório anual de atividades contendo os registros de batismo, o que a capacita a conhecer o número exato de pessoas que ingressam formalmente nos seus quadros. Assim, computados ano a ano, até 1986, eles totalizavam 1.015.619 crentes. Não estão aí considerados, portanto, os batismos anteriores a 1966, ou seja, os crentes que receberam o sacramento desde 1910, data da fundação da igreja, a maioria ainda viva. Esse indicador permite, com cálculo bem-aproximado, estimar em, pelo menos, o dobro, isto é dois milhões, o universo de fiéis da Congregação. Nessa estimativa, contam-se, principalmente, pessoas que aderiram à crença pentecostal e que, como é comum acontecer, não convalidaram o batismo recebido na sua igreja de origem, não sendo, pois, registrados.

O relatório indica ainda que o número de casas de oração no País, que era de 2.435 em 1966, pulou para 7.559 em 1986, estando 2.735 em prédios próprios e 4.824 em imóveis alugados ou cedidos. A maioria encontra-se nos Estados de São Paulo (2.460), Paraná (1.095) e Minas Gerais (1.086), espalhando-se as restantes por todas as unidades federativas.

Livro: DÉCIO MONTEIRO LIMA, Os demônios descem do norte, Rio de Janeiro, 1987

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